Inserção de produtos da agricultura familiar nos diferentes mercados – uma abordagem logística

Postado por Proega Proega em quarta, agosto 15, 2012 Em: Janaína Diniz

DINIZ, Janaína D.A.S.

A agricultura familiar é de fundamental importância para a segurança alimentar de milhares de famílias brasileiras, mas também em muitos países em desenvolvimento. No Brasil, este setor mobiliza 14 milhões de pessoas e representa 60% dos trabalhadores da agricultura. Os pequenos produtores representam 75% das propriedades rurais, 25% das terras nacionais cultivadas e 35% da produção agrícola nacional (IBGE, 2006). Uma grande diversidade de alimentos, especialmente aqueles que compõem a base da dieta da população brasileira, tem sua origem na pequena produção, particularmente aqueles que trabalham com a produção vegetal.

A principal característica dessa produção é o fato de ela ocorrer em pequenas propriedades familiares, com predominância de ciclos curtos de produção, forte sazonalidade, uso intensivo de mão-de-obra e com produtos altamente perecíveis. Abramovay et al. (2003) definem como familiar aquelas unidades onde a gestão, o trabalho e a propriedade dos meios de produção (mas não necessariamente da terra) pertencem ao produtor. Agricultura familiar é, dessa forma, definida não pela extensão da área, mas pela gestão e pela presença majoritária de trabalho familiar no estabelecimento rural.

Além das dificuldades logísticas para acessar seus clientes, os agricultores familiares também encontram problemas para inserir seus produtos nos diferentes mercados, principalmente naqueles que requerem grandes volumes, horários especiais e elevados padrões de qualidade. Estas características, associadas aos curtos períodos de pós-colheita para cada produto, influenciam a escolha das culturas e sua localização, que deveria estar preferencialmente mais próximas ao mercado consumidor.

Por este motivo, é importante se analisar como a logística pode ser um instrumento estratégico de competitividade para as organizações de produtores de base familiar. Os pequenos agricultores precisam estar organizados para acessar mercados e, dessa forma, a gestão logística pode melhorar o seu nível de organização, ajudando estas organizações a ter uma gestão mais eficiente, não somente no que se refere à produção no campo, mas também em processos de armazenamento e distribuição. O desafio consiste em distinguir o contexto de cada grupo de agricultores familiares – produtores de hortaliças, leite e derivados, artesanato, entre outros –, mesmo se alguns estão envolvidos em mais de uma dessas atividades. Existem particularidades em cada uma das cadeias logísticas de produtos originários da agricultura familiar, o que torna a complexidade destas um enorme desafio quando pensamos em soluções adaptadas a cada realidade.

Se a implementação de uma logística integrada é complexa para grandes empresas, no caso de pequenas organizações, mesmo se os contextos são distintos, a dificuldade também existe e muitas vezes se mostra até maior, pois, enquanto grandes empresas possuem recursos financeiros, humanos e tecnológicos para superar este desafio, as pequenas organizações geralmente possuem recursos limitados.

Antes de se propor qualquer solução para a adequação de um sistema de gestão logística para organizações de pequenos agricultores familiares, as peculiaridades e limitações de cada grupo devem antes ser conhecidas e entendidas. Por exemplo, nos supermercados, a entrega de produtos está sujeita a diversas condições, como transporte próprio do produtor, qualidade, pontualidade e preços competitivos. A maior parte das hortaliças vendidas nestes estabelecimentos tem origem na pequena produção familiar que, a fim de vender seus produtos nesse tipo de estabelecimento, precisa se organizar coletivamente em associações ou cooperativas. Para este tipo de cadeia, Abramovay et al. (2003) mencionam que é muito comum que um agricultor mais estruturado recolha e distribua a produção de outros produtores. Por outro lado, para reduzir os riscos de falta de abastecimento, os supermercados preferem trabalhar com um amplo número de produtores. E a necessidade por volumes de produção e a falta de organização acabam limitando a participação daqueles agricultores que possuem recursos limitados. Assim, a produção dos pequenos agricultores deveria ser destinada principalmente aos pequenos mercados e/ou aos centros de distribuição locais. Somente a partir desses centros a produção poderia ser comercializada para outros tipos de estabelecimento.

Com relação à existência de diversos canais de distribuição, Woods (2004) observa que quanto mais alternativas uma organização possuir, menos dependente ela permanece e menores são as chances desta ser afetada pelo poder exercido por outra organização. Assim, deve-se sempre buscar uma maior diversificação de produtos e o fortalecimento de canais de comercialização para produtos da agricultura familiar (Orsi & Melo, 2004).

Desde a última década, algumas mudanças tem conseguido atender a algumas demandas da agricultura familiar. Entre elas, têm-se as ações coordenadas por algumas instituições públicas brasileiras, que fornecem recursos para projetos que visam melhorias nos processos produtivos e administrativos de organizações da agricultura familiar e a sua inserção em mercados institucionais, com vistas a prepará-las para o atendimento de outros mercados no futuro. Abramovay et al. (2003) lembram que as organizações de agricultores familiares são unidades de produção aptas a incorporar importantes mudanças tecnológicas, assim como a participar em mercados dinâmicos e a operar de forma responsável com o crédito que devem receber.

Para os agricultores familiares, tem-se, dessa forma, dois desafios maiores: colocar seus produtos no mercado e alcançar preços justos que assegurem algum lucro para seus empreendimentos. Nesse contexto, é importante se entender como o processo de comercialização de produtos da agricultura familiar funciona. Quando analisamos o processo de comercialização utilizado pelos agricultores familiares, podemos observar que a sua inclusão no mercado depende do grau de conhecimento e de tecnologia que os agricultores podem controlar nos seus processos produtivos. Nesse contexto, os pequenos produtores poderiam focar em dois níveis básicos de canais de distribuição: um canal de nível Zero, usado quando os produtores vendem seus produtos diretamente para o consumidor final, sendo as feiras livres um exemplo tradicional para este tipo de canal, além do canal de nível 1, onde a associação ou cooperativa reúne os produtos de um grupo de produtores. A vantagem deste formato de comercialização é a aproximação do produtor com o consumidor final, onde o preço recebido pelo produtor é igual ao preço pago pelo consumidor.

Considerando a nova tendência da estrutura da agricultura e suas relações com o mercado, torna-se necessário que os agricultores familiares se organizem em redes de cooperativas com o objetivo de operar em regime de parceria em uma dada região. Seguindo este caminho, eles serão capazes de colocar produtos competitivos no mercado e com maior valor agregado. E neste cenário, a prática da logística integrada pode auxiliar na preparação das organizações agricultores familiares para atuarem em mercados cada vez mais complexos, competitivos e globalizados.


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¹ Texto adaptado de publicação de Janaina Deane de Abreu Sá Diniz e Adelaide dos Santos Figueiredo (2011). Integrated Logistics in the Supply of Products Originating from Family Farming Organizations, In: Supply Chain Management - New Perspectives, Sanda Renko (Ed.), InTech, Disponível em: http://www.intechopen.com/books/supply-chain-management-new-perspectives/integrated-logistics-in-the-supply-of-products-originating-from-family-farming-organizations.

 

Referências

 

ABRAMOVAY, R., SAES, S., SOUZA, M.C., MAGALHÃES, R. (2003). Mercados do empreendedorismo de pequeno porte no Brasil, CEPAL: Escritório no Brasil.

 INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA - IBGE (2006). Censo agropecuário 2006: resultados preliminares, Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, Rio de Janeiro.

 ORSI, S. D., MELO, M.F. (2004). Agronegócio no DF e o segmento de produtores rurais de economia familiar, in Figueiredo, A.S., Prescott, E., Melo, M.F., Integração entre a produção familiar e o mercado varejista: uma proposta, Universa, Brasília.

 WOODS, E.J. (2004). Supply-chain management: understanding the concept and its implications in developing countries, in Agriproduct Supply-chain Management in Developing Countries, edited by G.I. Johnson and P. J. Hofman. (Australian Centre for International Agricultural Research: Canberra, Australia).

Em: Janaína Diniz 


Tags: logística  "agricultura familiar" 
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